14.9.09

Vão breves passando


Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.

De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.

E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.


Fernando Pessoa

13.9.09

O retrato de João Mabandido


Diante carbonizada maquilhagem
Afunilado aspecto despedido da sombra
O estiloso das coçadas Jeans Levis
Mão de palmar no faro apurado de ladrão
João Mabandido era
Brincador de ouro nas orelhas das senhoras
Ora coroado com pneus de lume pendurados no pescoço


Amin Nordine
Moçambique

Algures, num momento de silêncio



Algures, num momento de silêncio,
neste campo aberto que é a minha vida,
de noite,
sempre de noite - quando a magia acontece,
surge uma forma no vento
e nele,
um poema suspirado.
É certo que os poemas são mesmo efémeros
e as palavras um dia serão nada,
desaparecerão no esquecimento das eras
tal como as peles que vestimos
e os nomes que ostentamos.
O poema que é teu,
trazido pela brisa que na relva fresca te desenha,
um dia não será mais que outra coisa,
acompanhando-nos,
na impiedosa sucessão de formas e sabores
que provamos
e temos de largar.

Mas esse teu suspiro
e essa tua forma
e esse teu poema
e esse teu sentido (tão próximo do meu)
pintaram-se no quadro do horizonte
deste campo aberto que é a minha vida...
e de noite, sempre de noite - quando a magia acontece,
a realidade perceptível da ilusão do universo
colidirá com nossos fogos,
ardendo em uníssono,
dançando no mesmo vento
que agora desenha nós os dois,
que agora suspira o ar quente da cama embriagada,
que nesse momento se deixa entregar...
no mesmo campo aberto que é a nossa vida
e de noite - quando a magia acontece,
àquela pequena parte de um segundo
de uma eternidade passageira.


Rui Diniz

Imperfeita madrugada



como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem


Alice Vieira

12.9.09

Dentro de Mim



Dentro de mim há vozes que não calam ...
Tantas canções diversas, distraídas ...
Dentro de mim existem tantas vidas,
Tantas pessoas que por mim passaram ...

Dentro de mim habitam anjos calmos,
Também demônios em oposição ...
E eu cá de fora ouvindo essa canção
Por entre o mal e poderosos salmos ...

Observando as forças e os temores,
Olhando o ódio em luta contra amores,
Eu vejo a Vida borbulhar sem pressa ...

Passam-se horas, dias, tantos anos ...
O meu cansaço chora os desenganos
E a eternidade diz-me: recomeça ...


Sílvia Schimidt
Brasil



É doce envelhecer quando o que avança
e ir recrudescendo a inteligência.
Entra-lhe o mundo no vagar. Decanta
o seu volume inteiro de contenda.
Transporta-se. E entrega na palavra
a inteligível criação. Entrega
o desenvolvimento. O pulso. A trama
que ajustam sua refundacão aberta.
E a docura de se ir vendo alarga
o envelhecimento a quase ciência.
Uma ciência onde o enigma é alma.
E onde o mundo contunde. Insiste. E pesa.

Fernando Echavarria (poeta timorense)



11.9.09

O Luar



O luar,
é a luz do Sol que está sonhando

O tempo não pára!
A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...

...os verdadeiros versos não são para embalar,
mas para abalar...

A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...

Mário Quintana (poeta brasileiro)

8.9.09

A lua



Tenho de repensar a minha vida,
disse-me, e acrescentou:
ser-se feliz é não ter esperança.
Lembrei-lhe o sol e o mar
que hoje vejo sozinho nesta praia,
e respondi não há quem viva assim,
ainda que a esperança não exista.
Mas vi-a olhar o céu,
dizendo que sorte é termos a lua
- rege-nos as marés e o corpo -,
e que amava o seu rosto claro,
um espelho de luz na noite
onde se olhava já sem sonhos.
Nem suspeitou ser isso a esperança,
a lua e os espelhos sem mais nada,
a música que ouvíramos
e o mar além, atrás das dunas.


Nuno Dempster

7.9.09

O Poema que hei-de escrever para ti



O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério

fiel.


Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro

Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.


Cristóvam Pavia

Um verso hebraico

A Estrela d'Alva

Que esta luz não me esqueça.
Quando tu afastares a cortina
E a minha cabeça, lembrada, te
Mostrar a sua garra em terra.
Subiste. No fragor da chegada:
Kervan kiran. Kervan kiran!
Um momento disse ela. E parámos.
Ervas de judeus e pegas anil.


Gil de Carvalho

6.9.09

Cesário foge pelos herbanários



Cesário andava pela cidade com plantas
silvestres metidas na cabeça
Irrompiam-lhe nas calçadas no repuxo das fontes
no grito das varinas no trote das patrulhas

Ninguém sabe contudo que em fidelíssimo segredo
deixou outro livro do qual Silva Pinto nada soube
Nem o Caeiro da planta é uma planta é uma planta
que se apanhasse fechava-o à chave na arca

para girândolas futuras dos casmurros das Universidades
Mas nada de suspense O livro é apenas um herbário
todo rechonchudo de coisas trivialíssimas
como a receita para lavar manchas de amora nos bigodes

ou de como arrancar sem dor cucos de tojo que um dia
lhe pegaram uma coceira dos infernos Depois há folhas
e folhas amarelecidas de chuvas-de-oiro mongaricas
urzes torgas estevas-dos-saloios sarças

alecrins alfenas lentiscos e loendros
Um nunca acabar Ao lado de um esparto
a nota: tenho o pulso como um cajado de pastor
e meus dedos amadurecidos como um céu de Verão

Assim se sentimentaliza um ocidental
Confiar como? Se quando menos se precata
salta ou voa sobre a Dor humana
e as marés de fel como um sinistro mar?

Folhear o herbário é vê-lo como abria as portas
A toda a moscaria É vê-lo esquecer-se da Cólera
E da Febre Ver como deixava que a terra lhe marinhasse
Como um vinho de fogo pelo exangue corpo acima

E ver isso é bom Admirar-lhe os ouvidos
encostados ao sol à escuta que os estames
e pistilos se pusessem a ferver O pólen
a descer o corrimão da luz até cobrir de um certo oiro

a sombra pisada da sua melancolia O vinho
a espirrar numa chuva muda de palavras
Coisa estranha: o cântico de um homem
expresso em folhas secas caules flores

breves notas num herbário como: é meu irmão
o entrecasco de sobro bom para a taninagem
As maçãs de espelho não andam bem empapeladas
Fica-lhes mal o verde e a serradura


Alexandre Pinheiro Torres

Vem, das estradas longínquas da minha terra





Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua
Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
Terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem
Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!
Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas
Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e Cl[amor] do nosso povo
Minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
Nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
Zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
Apague
É a podridão do nosso povo, não é?
Fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre
Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem
Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
Suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado
Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
Aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
E iluminaram as noites de Nkaringanas
Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
Perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
Oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís
Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também
Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... He, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!

Noé Filimão Massango
Moçambique

Dívida ou dádiva


Dívida ou dádiva,
o que de mim sobrar
Será entregue a quem o reclamar
Como a água,
Sou o meu lugar de nascimento.
Como o fogo,
Sou a alma e o dia.
O dia está depositado em meu coração
Como o vinho nas adegas.
Dívida ou dádiva
Compreendo que nunca estive,
Ou estarei só.


Ivo Machado

A mim que o teu corpo transcende



A mim que o teu corpo transcende
com a infinita lonjura de asas
reserva-se o direito de aguardar nas encostas
nas escarpas
na sombra dos pinheiros
na essência ardida dos cabelos como pinheiros
o teu regresso das montanhas


Andreia C. Faria

5.9.09

Quarto




Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.


José Luís Peixoto

4.9.09

A noite em que nos sentámos no muro



A noite em que nos sentámos no muro
entre os quintais. O mundo estava aninhado
sob o tecto dos teus sentidos, recuava
à posição pouco óbvia
de um jardim.

Vinhas com o tempo certo sobre
as silvas, já punhas o amor a arder
nos canteiros. Não valia a pena explicar
uma coisa tão rara.


Rui Pires Cabral

3.9.09

O meu amado


O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo.
Planta árvores de seiva e folhas.
Dorme sobre o cansaço
embalado pelo momento breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida.
Depois parte.
Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.


Ana Paula Ribeiro Tavares (poetisa angolana)

2.9.09

Se és meu amigo


Se és meu amigo
oferece-me um barco

e deixa-me no meio do mar
sozinha

Se gostas de mim
inventa para hoje
uma ilha

e deixa-me nua
na areia


Apenas o corpo das dunas
apenas a ansiedade dos juncos
apenas a pressentida viagem dos peixes

Apenas a alta sombra fresca
dos pássaros
passando


Teresa Rita Lopes

Tem luz no corpo, é uma estrela


Tem luz no corpo, é uma estrela
que deambula à solta na cidade,
deixando atrás de si a claridade
que nasce só de vê-la.

Tem música na voz,
e um violino,
uma harpa, um violoncelo.
E as cordas do seu cabelo
prendem o meu destino.


Torquato da Luz

1.9.09

Rasgos de loucura



Apetece-me correr. Correr, num grito desvairado.
Assustar medos.
Não parar. Castigar o corpo. Martirizá-lo, até à exaustão.
Apetece-me correr, correr, correr...
acabaria num choro, prostrada no chão. Sem forças.
Cada passada seria um grito mudo... porque me apetece gritar.
Cada passada seria um desabafo... porque me apetece desabafar.
Deste fogo... que não consigo apagar.
Tu. Que me queimas.
Importa se não é o que queres?! É o que sinto.
Como esta vontade enorme de gritar.
A noite não me traz a calma do sono.
O descanso dos pensamentos.

A noite nada me traz a não ser eu mesma... outra vez!
Num corrupio de ideias sem nexo. Electrizantes.
Uma mistura de frases incompreensíveis. Como tu!
Um desassossego que acabaria no fundo de um abismo.
Numa opção de paz eterna.
Eu corro. Desmedidamente, desvairadamente, ofegantemente, exaustivamente, loucamente, arrebatadamente... para calar os gritos.
E não calo!
O nó que trago na garganta não se desaperta. Prende-se, a cada grito. Mais!
Afogo-me no ar que respiro. Sufoco no excesso de luz que me persegue.
Apetece-me correr. Correr, correr, correr... apetece-me não parar até o meu corpo rebentar...


Luísa Azevedo

Evadir-me, esquecer-me, regressar


Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen