9.7.09

Estátua Falsa

Statue of Woman with Pitchers Ballustrade, Woodland Melford House, Dorset Photographic Print by Jacqui Hurst

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de mêdo!

Sou estrêla ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

8.7.09

O tempo


O tempo
escava sobre ti.

Eras e és o rio,
montante cavalo
de ondas.

E vale,
mulher lavando,
rectilínea salina.

A foz, longe ou perto.
Como acompanhar
tuas ondas?


António Osório

6.7.09

Para esta Fogueira de Letras



Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua

Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem

Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!

Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas

Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e cl(amor) do nosso povo
minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
apague
É a podridão do nosso povo, não é?
fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre

Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem

Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado

Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
e iluminaram as noites de Nkaringanas

Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís

Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também

Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... Eh, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!


Noé Filimão Massango
Moçambique

Alguma coisa em mim amadurece



Alguma coisa em mim amadurece
no intervalo das estações
entre nuvens e vozes que ondulam um deslumbramento sonâmbulo.
São vocábulos áridos. Triunfos em declínio.
Entre eles habitam rastos inacessíveis
que estremecem ao som agudo da paciência.
Vigiando entre arvoredos espanto-me com a demora.
É o tempo em que recupero as pedras pequenas da infância
ínfimos animais
que vão modelando a trajectória da luz.
Alguma coisa pulsa entre a felicidade nua:
um diamante extenuado que aguarda a lapidação do amor.


Rui Magalhães

O reino das garças



Decididamente,
aqui é o reino das garças.

São elas talvez, de tão tranquilas,
a chave do enigma
deste lugar de raríssimos rumores.

Algumas já se habituaram
ao tráfego dos barcos:
olham maquinalmente,
como um obreiro que cumpre
o dever fastidioso de contar
coisas que transitam
– cestos de uvas, barcos, horas,
outras aves –,
sem ordem do patrão
para abandonar o posto de vigia.

Outras, timoratos riscos brancos,
vê-se que temem o contágio dos poetas,
põem-se em fuga,
sobrevoando os juncos.

E eu a bordo sigo as garças:
às vezes sou a que fica,
às vezes sou a que voa.


A. M. Pires Cabral

arreiou!... arreiou!...



arreiou!... arreiou!...

aproveita agora
questou maluca

arreiou no
meu espelho
é cinquenta

aproveita agora
que tem
muito sol

arreiou!... arreiou
é dez no sumo

aproveita agora
questá chover

arreiou!... arreiou!...
é cem o balde

arreiou!... arreiou!...

compra agora
que tenho fome


Fernando Kafukeno
Angola

5.7.09

De que me rio eu?



De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.


António Patrício

Pétala de rosa



Pétala de rosa! Olha,
Do velho poeta, não rias;
Guarda-a na folha
Do livro que se lê todos os dias.

Amor, não o sacies,
Não venhas a perdê-lo;
Põe pelo sinal um fio de cabelo
Na carta que me envies.

Foges-me da vida:
E na menina dos olhos,
Achada ou perdida,
Ali sempre te encontre, de sonho vestida.

Que importa o sol tão alto,
Que dê a luz do dia?
O sonho, seja irmão da loucura,
É o que dá poesia.


Afonso Duarte

Soma


O que o teu amor me dá:

a pérola no centro,
a exacta e pequena pérola
por onde a luz se esvai,
num fechar de olhos,
entre nós.

E o riso tão inesperado
nesse campo de cansaço
em que o repouso
cresce, trazendo a razão
aos braços da loucura.

Os teus olhos onde
os meus mergulham, lago
manso da tarde que
empurramos, à janela,
até o dia inteiro
ser madrugada.

E ver-te acordar, como
o brilho que salta de antigas
colinas e se espalha
por frescos lençóis de
onde te roubo, abrindo
a manhã.



Nuno Júdice

O Lord





Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso --- em dúvida iludida...
( - Por isso a minha raiva mal contida,
-Por isso a minha eterna impaciência.)

Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas -
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...

(- Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -
E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...).


Mário de Sá-Carneiro

Cavaleiro do Cavalo de Pau



Vai a galope o cavaleiro e sem cessar
Galopando no ar sem mudar de lugar.

E galopa galopa e galopa, parado,
E galopa sem fim nas tábuas do sobrado.

Oh! que bravo corcel, que doidas galopadas,
- Crinas de estopa ao vento, e as narainas pintadas!

Em curvas pelo ar, em velozes carreiras,
O cavalo de pau é o terror das cadeiras!

E o cavaleiro nunca muda de lugar,
A galopar a galopar a galopar!

Afonso Lopes Vieira

4.7.09

Mãe



Palavras para a Minha Mãe


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto

Não sei quem manda na vida


Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.


Prof. Agostinho da Silva

3.7.09

Homenagem a Cesário Verde



Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país


Mário Cesariny

Poema do mar e da serra



Ó mar de que não sei nada
Nem vejo que desvendar,
És só a mais larga estrada
Para ir e voltar!

Eu sou lá dos montes
Que medem o céu,
Sou das frias serras onde primeiro o Sol nasceu
E onde os rios ainda são apenas fontes.

Sou de onde as árvores falam
A língua que eu conheço,
Onde de mim sei tudo
E do resto me esqueço.

Lá, tenho olhar de estrelas a luzir
E tenho voz de guardador de rebanhos,
Passos de quem só desce pra subir,
Mãos sem perdas nem ganhos.

Contigo falo, ó mar,
Se a Lua vem do céu passear no mundo,
Tornando-te a planície do luar
Sem ecos nem mistérios de profundo.

Mas só lá sou da terra e a terra é minha,
Só lá eu sou do céu e o céu é para mim,
Ó serra aonde há tal serenidade
Que nada tem começo
Nem fim.


Branquinho da Fonseca

Poema da mulher




Amo a beleza clara e justa da mulher.
Amo o que nela arde a sua pele serena
o corpo liso a cabeça pousada na mão.
Amo o sorriso por vezes triste o modo
como me olha entre a dúvida e o amor.
Sobretudo amo-a por a ouvir dizer-me
olá e depois é como se a voz abrisse um
caminho entre a minha e a vida dela.
Então tudo em mim lhe comunica um mundo
que estando do lado de cá passa para
o centro dela e fica dentro da sua alma.
Amo-a afinal toda e inteira e desperta
ou adormecida no íntimo do continente
ou na parte mais alta de qualquer ilha.
A mulher que eu amo é um ser de partida
que de vez em quando regressa à minha mão.
Ela não sabe mas há em mim uma maneira
de ir com ela e uma outra de a esperar.
Parto no navio alto e branco do seu ser
espero-a à chegada do vento que a anuncia
presente sentada na bainha da minha alma.


João de Melo

Discurso no Parlamento



Um dia, encho-me de coragem
E vou mesmo discursar no parlamento
Confesso que fiz juramento
De ir a pé até lá
De entrar naquela sala,
Para discursar a minha mensagem

Um dia, apareço nas câmaras da televisão
Verdade mesmo, não é ilusão
Apareço com o meu rosto maltratado
Com o meu rosto de drogado
Para pedir um ponto de ordem
Aos senhores deputados,
Eu mesmo que vivo do outro lado da margem

Já sei que vão olhar com indignação
Para os meus pés descalços
Para os meus calções rotos
E para os meus magritos braços
Já consigo imaginar os vosso rostos
De indignação e estupefacção

Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar
Em plena assembleia nacional
Assim mesmo, com este meu visual
De menino de rua votado ao abandono
De menino de rua cão sem dono
Eu vou à assembleia nacional falar

Assim mesmo, sem convite
E sem ser chamado
Eu, que não sei falar português de escola
Vou entrar naquela sala
Para falar com os senhores deputados
Eu vou lá sem convite, acredite!
E antes de me porem andar à paulada
Antes de me mandarem calar à porrada
Vou rasgar o meu peito
Para vocês escutarem o grito
De tanto sofrimento vivido
De tanto sofrimento bebido

E enquanto estiver a ser arrastado
Para fora da assembleia nacional
Eu, menino de rua cão sem dono e drogado
Eu, menino de rua marginal
Ainda terei coragem
Ainda serei capaz
De trovejar a minha mensagem:

POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!

Não levem a mal
Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!


Décio Bettencourt Mateus

2.7.09

princípio do prazer

Peace Joy Love Art Print

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

Vasco Graça Moura

Infância



e jogava o pião com Deus
enquanto minha mãe estendia roupa
e o meu pai mendigava o pão

e minha alegria nesse tempo
era muito próxima da dos meninos
e de Deus que ganhava sempre

e não sei quem perdi primeiro:
o pião ou Deus
apenas sei que Deus continua
a jogar com outros meninos

e que no Outono quando saio à praça
nos sentamos e falamos muito
do suave rodopiar das folhas


Daniel Faria

LOVE-FICTION


O poeta é um fingidor
Fernando Pessoa


Quando chegar à Lua, hei-de encontrar,
na fria alcova de árida cratera,
a verde selenita que me espera,
gota final de algum extinto mar.

Terei então cem anos? Um milhar?
Ou mais talvez, além da nossa era...
E ela será botão de primavera
que sem pólen não chega a despertar.

Eu darei saltos de acrobata, ao vê-las,
às algas dos seus dedos, a alongar-se
em railes a caminho das estrelas...

Desceremos os dois, porém, uma curva,
onde o mistério se abre, sem disfarce,
para a face da Lua funda e turva.


(in «Moço, Bengala e Cão»,
edição do autor, 1971)


Adolfo Simões Muller

Há uma saída?


Mas há uma saída? Imagina
na insónia as florestas que crescem
a essas horas noutras regiões, os comboios
que as atravessam para alcançar um destino
no futuro dos outros.

Há uma saída? Imagina
a noite cheia de cidades violentas,
o retumbar das máquinas nos subterrâneos
e a chuva a cair no plástico negro
dos morangais, todo o sofrimento
e incerteza do mundo.

E da manhã, repara, está bonito
o tempo. Os amigos acordam no quarto ao lado,
descem à cozinha para fazer o café.

Mas há uma saída?


Rui Pires de Cabral

Era a Ilha das frescas madrugadas,
era a Ilha dos cálidos poentes,
das aves a cantar, em revoadas,
do cheiro a mel e a flor dos dias quentes.

Longas fitas, lianas ou serpentes,
enroscam-se nas árvores copadas.
Germinam, silenciosas, as sementes
se a chuva cai em bátegas pesadas.

A noite desce, aos poucos, sobre a Ilha
como arrendada, tépida mantilha
de fios de ouro, de luar azul.

Há sussurros de insectos na folhagem
e um cheiro a mar, o apelo da viagem
que chega em ondas e que vem do Sul.


Fernanda de Castro

A última marrabenta



Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos

Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos.

Domi Chirongo

1.7.09

O sexo do texto


Espero-te
esmagada de fúria.
Se vieres, com a descarnada volúpia de um tigre, acenderás de novo
o meu desejo.
Uma brasa! uma brasa!
me queimará o pêlo. Não o desviarei.
Redondo é o calor e o sexo
deste texto. A ele me acolho,
desprotegida.
A nudez é rugido. Minhas… as garras: o verde
brilho enrijecendo no que faz explodir
o olhar do gato
aninhado em teu peito.


Eduarda Chiote
Passagem de nível



Amigos, algo de grave
Se passa na ferrovia,
O maquinista que trave
A nossa composição.
João-bandeirinha sabe
Mas onde é que está João?
Vamos todos procurar
João ao longo da linha

Por terra e pelo ar,
Cem mil olhos-noite-e-dia.
Que sem João-bandeirinha
Vivo a mal ou a bem,
Não há via livre nem
Código de ferrovia.


Orlando Mendes
Véspera confiada, 1968