5.6.08


O Poema


A tinta e a lápis
Escrevem-se todos
Os versos do mundo.

Que monstros existem
Nadando no poço
Negro e fecundo?

Que outros deslizam
Largando o carvão
De seus ossos?

Como o ser vivo
Que é um verso,
Um organismo

Com sangue e sopro,
Pode brotar
De germes mortos?

*
O papel nem sempre
É branco como
A primeira manhã.

É muitas vezes
O pardo e pobre
Papel de embrulho;

É de outras vezes
De carta aérea,
Leve de nuvem.

Mas é no papel,
No branco asséptico,
Que o verso rebenta.

Como um ser vivo
Pode brotar
De um chão mineral?

João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)





A noite vive lá no norte.
Seis meses sem uma noite,
e não houve um só raio de sol
que tocasse a sua alma.

Vem, deita-te neste país
só ele te aquece.

Sempre, sempre noiva
a aurora.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)



Caminho pelo lado da rebentação das ondas ―
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
e o labirinto das algas ainda agora oferecidas

à praia. Sinto-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:

agora as marés dobam novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar

ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes.

Maria do Rosário Pedreira
Ante-Manhã
Janeiro 1967


Estás no altar, bem sei,
acima de mim que olho
o teu vestido de gesso
pintado de azul.
E escovo com a mão o fato,

com um gesto inusitado,
na lapela azul do fato.
Rezo um Pai Nosso.
"Pai Nosso. Ave!"
Digo:"Salve!
bendita entre as mulheres,
ó minha Mãe!"
Sou tão pequeno, pequeno,
ao pé de ti, minha Mãe!
"Eu tinha um urso de
pano...
Ave!
a quem arranquei os olhos"
Tenho frio nos joelhos.
Ainda é noite na cidade.
"Tu tiraste-mos da boca
e eu cresci, minha Mãe!"
Maria!
Cresci tanto que não posso
já com o peso dos anos.
"Tinha a boca ensanguentada
dos agudos olhos vidros."
Mas não está aqui ninguém.
Posso chorar à vontade.
"Pintaste as covas de azul,
digo, nas covas, os olhos.
E eu chorei."
Cheia de graça!
Chorei como choro agora
de sentir na minha carne
os raios de arame-cobre
que descem de tuas mãos.
O sol ainda não nasceu.
Também que mania esta
de não mudarem as horas.
Ave!
Aqui a luz é das velas
e de uma lâmpada eléctrica.
Mas que solidão, meu Deus!
"O urso ficou guardado
numa caixa lá no sótão.
Meti-lhe os dedos nos olhos."
O Senhor é convosco!
Senti, como sinto sempre,
a dor fina quando esfrego
os olhos, de ter chorado
depois, nesta vida breve.
Bendita sois vós!
Alguém entrou. Quem será?
Parece haver claridade.
São já oito horas certas.
Saíste de casa às sete.
Terás esquecido a chave?
Bendita sois vós!
Sou tão pequeno, pequeno
Ao pé de ti, minha Mãe!
"O tempo
é muito tempo
para uma vida
pequena"
Bendita sois vós!
A nossa vida é pequena,
como eu sou pequeno, Mãe!
E eu queria bendizer-vos.
Bendita sois vós!
Estás fraco, rapaz, estás fraco.
Levanta-te. Vai-te embora.
Mas antes reza a oração
que nosso Pai ensinou.
Digo: Jesus. Tanto faz.
Vá!
"Pai Nosso que estás no céu.
Santificado..."
É possível que o correio
Venha hoje de Timor.
Salve!
Timor!
Timor! Que paciência eterna!
Vinte anos de paciência.
Ilha de mistérios densa
e gente de tez morena.
Timor, minha ilha querida.
Minha verdade. Falida?...
Ó minha causa perdida!
Senhora, tem piedade.
Tem piedade, Senhora.
Tem piedade.
Olha-me por essa gente
portuguesa,
que te ergueu um trono, uma pedra.
Um sacrário de inocência.
Fatu lulik Maria!
Tata-Mai-Lau, Tutuala,
Mata-Bia, alma dos mortos.
Sagrado monte dos mortos.
Venilale, Ave-Maria!
E abro de pronto os braços.
Sou eu que agora actuo.
Não falo, apenas murmuro
no halo que Timor teve.
"Senhora, tem piedade.
Tem piedade de mim.
Sê tu a minha verdade
na vida."
E senti-me trespassado
nos olhos, no corpo todo,
pelos raios - momento breve,
fulgente de frio e cobre -
que tuas mãos irradiam
em S. Luís dos Franceses.
Salve!
Ó clemente,
ó piedosa,
ó doce...
E saí, doido varrido,
cego de azul, cego, cego,
mas contigo, só contigo
e o meu urso pequenino
cego, cego, cego, cego,
desta igreja escura e fria.
Numa manhã de neblina
doirada pelo céu de inverno
entrei, radiante, pelo Rossio.
Salve!
Não havia táxis.
Mas segui, radiante, o meu destino.
Salve, salve, salve!
Em Timor amanhecia!
Ave Maria!
Entrei na Brasileira do Chiado.
Pedi um chá com torradas
e li o jornal.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...
Há notícias no jornal.
Caso raro.

Ruy Cinatti (poeta timorense)





...não totalmente,
mas no inveterado fingimento
que o adjectivo tem.
E de inverno em inverno,
à reticência azul do teu sorriso
todos os dias
desço

Queria da vida:
um pêlo de gigante
que te fizesse enorme e te falasse
junto a voz
falada

Os meus dedos tocando
o teu sorriso,
que, de inverno em inverno,
é nave espacial
emergindo do gelo
para o sol

E eu ficar por ali: tão encostada
ao verso,
carregada de luz
e de outras coisas:
trabalhos a fazer, ritmos lentos

Sem grandes construções,
sem grandes falas,
mas de um pêlo solene de dragão,

e dentro da palavra que é imposta
por esta noite morna,
que me ajuda a compor-te,
que me ajuda de facto
a desesperar:

uma canção de amor.

Descer o teu sorriso e aterrar
em planeta diferente,
onde outras flores com outro nome
nascem,
e as estações são vinte,
ou mais
- sensivelmente.

Ana Luísa Amaral

Catando os Cacos do Caos



Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.

Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.

Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.

Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.

Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.

Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.

Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.

Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça? Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção

Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim

Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.

Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora.


Affonso Romano Sant'Anna
(poeta brasileiro)

A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

É a manhã no copo



É a manhã no copo;

Tempo de decifrar o mapa,
De abrir as cortinas onde o sol frio nasce,
De ler uma carta pertubadora
Que veio pela galera da China;
Até que a lição do cravo
Através dos seus cristais
Restitui a inocência.


Murilo Mendes (poeta brasileiro)


Uniforme de Poeta


Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.


Orlando Mendes


O navegador


Plena, a cidade
navega o dia. Ao lado,
o mar em que verte.
Passa lentamente,
à sombra, imposta,
do seu meridiano.
Só um vidro faísca:
há séculos emite
sinais indecifráveis.


Sebastião Alba


Menus



Leves
e frescas
camisas à sport
voltam a gozar o lazer
das cidades.

Entretanto aquelas tristonhas titias
aqueles macambúzios vovós-ninguéns
e aqueles mamparras mufaninhos
na cinegética rural
constam crus
em suculentos
menus das feras.

José Craveirinha




Ilha dourada

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo o mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade.
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento.

Rui Knopfli

Poema para Rui de Noronha
- No aniversário da sua morte


Nas matas selvagens da nossa terra natal,
os trilhos abertos a golpe de catana

tomaram uma direcção emocionantemente nova,
única e imutável.

Caminho com picos, ah sim, com espinhos,
mas caminho para nossos pés lanhados,
levando-nos para lá, Poeta...
Ante os novos horizontes abertos em dádiva,
nossas almas passivas aprendem a querer

com força, com raiva,
e se erguem, guerreiras, para a dura luta
e as bocas são uma linha forte e cerrada
no seu não decisivo como sentinela alerta.


Rui de Noronha,
nesta nova África de certezas e forças restauradas,
nos meio dos "paixões" e das bebedeiras do Natal,
vens-me tu, torturado e solitário,
ainda projectado para os fundos abismos do teu eu,
mergulhado em verdes precipícios de tédio
e insatisfação...
Vens-me sangrando de teus amores, Poeta,
tens amores inumanos
com desesperos suicídas e orgulhos brâmanes
te tomando toda a vida de homem.

Mas se tu me vens, Poeta,
desarmado e trágico,
eu te recebo fraternalmente
na capulana quente da minha compreensão
e te embalo com a música da mais doce canção
ouvida da minha cocuana negra...
E tu dormes, Poeta,
dorme teu sono tão desejado,
repousa em fim dessas fictícias tragédias só tuas,
e não atentes na canção...
Deixa que a sua carícia te sare as feridas,
mas não atentes nelas, não!
Que te pode despertar o xipócué do remorso
pois traz em si os feitiços mais poderosos
dos ngomas de Maputo
donde veio minha avó negra.
E talvez te pergunte, docemente:
ah, que fizeste de mim, Poeta,
cego e surdo e insensível,
que fizeste de Áfica, Poeta?
- Que passaste e não a viste?
- Que se ergueu e não a sentiste?
- Que gritou e não a ouviste?
E os remorsos te seriam tão dolorosos
como matacanhas te invadindo o corpo todo, Poeta!

Ai dorme, dorme, Rui de Noronha,
meu irmão,
continua dormindo aprisionado
na palhota maticada do teu eu.
Não atentes na canção - é tarde...

Mas o archote, murcho e fraco,
que as tuas mãos diáfanas mal logravam suster,
deixa que nós o levemos!
Embebê-lo-emos na resina das novas ânsias,
espevitá-lo-emos nas nossas fogueiras acesas,
manter-lhe-emos a vida chama
com lume das nossas esperanças sempre renovadas!

E depois, ah depois,
erguidos ao alto da Vida como um estandarte
por nossas brônzeas, fortes mãos
que a sua chama sanguínea de fulgor inextinguível
nos seja guia e inspiração
esporeando a revolta nascida nas veias entumecidas.

Como um cometa
atravessando a noite de nossos peitos esmagados.

Noémia de Sousa



Carta para um amor


Cidade!,
nunca fui mais longe do que
à raia de Espanha.
Creio amar Paris,
conheço Paris dos filmes, a Concórdia
dos postais, a Torre Eiffel divulgada,
Hitler passando sob o Arco do Triunfo.
Amo Paris em Aragon e Eluard,
Paris dos pintores, Paris de Erenburgo.
Amo outras cidades, todas as grandes
cidades.
Madrid dos espanhóis e do coração despedaçado,
Stalinegrado das batalhas, Berlim do triunfo.
Nunca fui às grandes cidades,
amo-as porque os homens mas ensinaram
a amar.
Conheço Lisboa grande e colorida,
longe dos meus sentidos
e Johannesburg do ouro e do pó.
Nunca fui a New York ou São Paulo
do Brasil.
Chicago, Los Angeles, Londres,
Moscou, Rio, não conheço,
não conheço as grandes cidades,
que as há,
do estado de Massachusetts
ou da beira do Nilo.

Cidade!,
amo em retórica discursiva
as outras cidades.
Das viagens que tenho feito,
por rotas tão diferentes,
és sempre a meta, cidade que amo
desde sempre,
- para lá dos poetas, dos pintores,
dos filmes e da retórica discursiva.
Os nossos companheiros tiveram
a coragem de partir,
vivem nas grandes cidades, com história,
do mundo,
eu fui covarde e fiquei.
Experimentei, e não soube, viver longe de ti
noutras cidades.
Sei que este meu amor é a minha mediocridade
também,
a mediocridade de quem não teve asas
para subir mais alto
e orgulho, o orgulho que nada venceu,
nem o ser estranho na própria terra.
É uma ternura que escorre
das tuas tranquilas avenidas de acácias
e jacarandás,
dos claros prédios,
da população colorida,
da mansitude da baía,
do teu ar de provinciana janota.
Cidade, menina fútil
de pouca história,
carros pequenos nas ruas,
velas na baía, patinadores nos ringues,
terra de sete estuários,
de cinemas e cafés buliçosos,
de alegrias e pequenas traições,
leviana, ingénua, snob, bonita,
mulata, branca,
hindu, negra,
de cabelos louros e olhos amendoados,
morena sensual,
terra índica, minha terra,
minha amada inocente, prostituída.

Amo-te cidade da infância,
com girassóis e casa de madeira e zinco
a dormir na neblina da memória.
As quadrilhas de arco, flecha e pistola
de fulminantes,
os esconderijos da barreira,
o sexo e as coxas morenas de Xila,
a Sete de Março da política e dos antigos cafés,
a tristeza verde-negra do Enes,
o paço do senhor bispo
e S. Navio todos os meses.

Quebrou-se esse velho espanto
e nossos companheiros
tiveram a coragem
de partir para outras cidades,
com história, do mundo
(Para eles tua lembrança é
fugitiva mágoa).
Só,
eu fiquei abraçado a este amor anónimo.


Rui Knopfli


Os limites do autor



Às vezes, ocorre
um autor estar
aquém
- do próprio texto.
De o texto ter-se feito,
além dos dedos,
como gavinha que inventou
a direção de seu verde,
e fonte que minou
o inconsciente segredo.

Um texto ou coisa
que ultrapassa a régua,
a etiqueta e o medo,
copo que se derrama,
corpo que no amor
transborda a cama
e se alucina de gozo
onde havia obrigação.
Enfim, um texto operário
que abandonou o patrão.

Às vezes ocorre
um autor estar aquém
da criação.
O texto-sábio
criando asas
e o autor pastando
grudado ao chão.

- Como pode um peixe vivo
estar aquém do próprio rio?
- Que coisa é esse bicho
que rompe as grades do circo
e se lança na floresta
no descontrole de fera?
- Que coisa é essa
que se enrola?
É fumaça? ou texto?
que se alça do carvão?

Lá vai o poema ou trem
que larga o maquinista
na estação
e se interna no sertão.
Ali o poema
olhado de binóculo
- só de longe tocado -
e o autor, falso piloto
largado na pista ou salas
do aeroporto, atrás do vidro,
enquanto o texto
levanta seu vôo cego
com o radar da emoção.Enfim,
um poema que vira pássaro
onde termina a mão
ou avião desgovernado
que ilude o autor e a pista
e explode na escuridão.


Affonso Romano de Sant'Anna
(poeta brasileiro)

O vício do tabaco


Era não!
Mas o tabaco
é um vício.

E o vício
fumado nas omoplatas
põe-nos sobre a língua a nicotina
e descerra os lábios
para o sim.


José Craveirinha


Amador



Vejam em que me transformei
por culpa minha e da sorte:
especialista em morte alheia
e amador da própria morte.


Affonso Romano de Sant'Anna
(poeta brasileiro)

O Povo da China visto do Alto-Maé


Eh pá, a gente pensa na China,
nos compridos campos de arroz
e nos milhões de pessoas
vivendo lá na China.
É engraçado a gente aqui no Alto-maé
que conhece o Kong, magrinho, da hortaliça
com aquela voz engraçada (Stá plonto patlão),
é engraçado como a gente se engana
com a China, aquele povo imenso
de Kongs amarelinhos e fala doce
que construiu a Grande Muralha
e que constrói a vida
e que, se tem tempo, se ri de nós,
da nossa pele descolorida,
dos nossos olhos redondos
e dos erres engraçados com que falamos.

Rui Knopfli

O dia que invejei meu Presidente


Tenho prosa
publicada
em livro,
não tenho
poesia!
Mas sou poeta
desde
a primeira
hora,
sinto isso.
Se me perguntassem
o que gostaria
de ser
em Novembro?
Sem consultar
Wycliffe Jean
responderia
Presidente
de Moçambique,
só pra viver
o parto
de meus versos
em livro.


Domi Chirongo


O beijo e a lágrima



Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiamado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.


Mia Couto
Moçambique

4.6.08


Lição


Oiço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo,
e sempre variado.


Miguel Torga



Livro de horas


Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

Miguel Torga

2.6.08


Namorados da Cidade


Namorados de Lisboa,
à beira Tejo assentados,
a dormir na Madragoa.
Namorados de Lisboa,
num mirante deslumbrados,
à beira verde acordados.
Namorados de Lisboa,
ao Domingo uma cerveja,
uma pevide salgada,
uma boca que se beija
e que nos sabe a cereja,
a miséria adocicada,
à beira parque plantada.
Namorados de Lisboa,
sempre, sempre apaixonados,
mesmo que a tristeza doa,
namorados de Lisboa.
Namorados de Lisboa,
na cadeira dum cinema,
onde as mãos andam à toa,
à procura de um poema,
namorados de Lisboa,
que o mistério não desvenda
até que o escuro se acenda.
Namorados de Lisboa,
a apretar num vão de escada
o prazer que nos magoa
e depois não sabe a nada.
Namorados de Lisboa,
a morar num vão de escada.
Namorados de Lisboa,
sempre, sempre apaixonados,
mesmo que a tristeza doa,
namorados de Lisboa.



José Carlos Ary dos Santos


Anos Quarenta, os Meus


De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavao alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmao
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mao ).
Salazar tres vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.


Luiza Neto Jorge
Tenho um decote


Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.


Maria do Rosário Pedreira