18.11.07

Universalidade


Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.

Redonda e quente como um grande abraço
De pólo a pólo, a sua humanidade,
Tendo raízes e localidade,
É um sonho aberto que fugiu do laço:

Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma lúdica semente,

Se parasse de medo no caminho,
Também parava a vela do moinho
Que mói depois o pão de toda a gente.


Miguel Torga

Vontade de Dormir

The Singer Art Print by Joan Miro

Fios d'ouro puxam por mim
A soerguer-me na poeira -
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...

. . . . . . . . . . . . . . .

- Ai que saudade da morte...

. . . . . . . . . . . . . . .

Quero dormir... ancorar...

. . . . . . . . . . . . . . .

Arranquem-me esta grandeza!
- Pra que me sonha a beleza,
Se a não posso transmigrar?...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

Balada para uma velhinha


Num banco de jardim uma velhinha
está tão só com a sombrinha
que é o seu pano de fundo.
Num banco de jardim uma velhinha
está sozinha, não há coisa
mais triste neste mundo.
E apenas faz ternura, não faz pena,
não faz dó,
pois tem no rosto um resto de frescura.
Já coseu alpergatas e
bandeiras verdadeiras.
Amargou a pobreza até ao fundo.
Dos ossos fez as mesas e as cadeiras,
as maneiras
que a fazem estar sentada sobre o mundo.
Neste jardim ela
à trepadeira das canseiras
das rugas onde o tempo
é mais profundo.
Num banco de jardim uma velhinha
nunca mais estará sozinha,
o futuro está com ela,
e abrindo ao sol o negro da
sombrinha poidinha,
o sol vem namorá-la da janela.
Se essa velhinha fosse
a mãe que eu quero,
a mãe que eu tinha,
não havia no mundo outra mais bela.
Num banco de jardim uma velhinha
faz desenhos nas pedrinhas
que, afinal, são como eu.
Sabe que as dores que tem também são minhas,
são moinhas do filho a desbravar que Deus lhe deu.
E, em volta do seu banco, os
malmequeres e as andorinhas
provam que a minha mãe nunca morreu.


José Carlos Ary dos Santos

Mistério



O mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo
e nunca termina.


Affonso Romano de Sant'Anna
(poeta brasileiro)

A música tem os seus segredos


Acendi o fogão
mas continuo gelado
no dia mais frio do tempo
ou, se quiserem, do ano.

Outra pá de carvão
e sento-me ao piano
para aquecer os dedos
nas pequeninas chamas que saem das teclas
e desenham com sons de outro lume
o perfume
da solidão.

A música tem os seus segredos,
como o de trazer do centro da terra
o fogo misterioso
do frio em combustão.


José Gomes Ferreira

15.11.07


D. Sebastião


Quem vai à luz do Céu com luz da Terra,
Encontra a escuridão no seu caminho;
Quem vai buscar a noiva em som de guerra,
Morre sem noiva e sem amor, sozinho.

Encontra a escuridão no sol ardente,
Arma do Anjo Negro mascarado
Que cega todo aquele que à sua frente
Ergue o rosto agressivo e confiado.

Morre na areia seca do deserto,
Seu corpo nu a apodrecer no chão,
Simplesmente coberto
Pelo pranto sem fim duma Nação.

E eu fui a Deus com alma natural,
E o meu grito de amor desafiou.
E Deus toldou-se quando eu dei sinal,
E a noiva nem sequer me sepultou!


Miguel Torga

14.11.07


Gozo IV


Que tenhas de mim
o contorno incerto
acertado nas linhas do
teu corpo
os dentes nos lóbulos e no pescoço
os lábios
a língua a cobrirem os ombros


Maria Teresa Horta

13.11.07

Soluço à vista de Olivença


Alentejo!
Minha terra total!
Meu Portugal
Aberto,
Eternamente incerto
Nas fronteiras, no tempo e nas colheitas!
Minhas desfeitas
Praças fortificadas!
Minhas insatisfeitas
Correrias,
A contar no franzido das lavradas
As rugas tatuadas
No rosto dos meus dias...

Miguel Torga

12.11.07

Consoada


Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira (poeta brasileiro)

11.11.07


Frésias


Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar,
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e toma, amigo, o coração tão leve.


Eugénio de Andrade



Tarde demais...


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E pra o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...


Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar;
E as pedras do caminho florescer!


Beijando a areia d'oiro dos desertos
Procura-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!


E há cem anos que eu fui nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
"Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!..."


Florbela Espanca



Alentejo


A lua que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...

Miguel Torga

Arte peripoética


Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem por dentro.
Aristóteles diria
entre dois goles de chá
que o melhor ainda seria
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
o que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
de casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
de casa de minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.


José Carlos Ary dos Santos


A Pesca



O anil
o anzol
o azulo silêncio
o tempo
o peixea agulha
vertical
mergulha
a água
a linha
a espumao tempo
o peixe
o silêncioa garganta
a âncora
o peixea boca
o arranco
o rasgãoaberta a água
aberta a chaga
aberto o anzolaquelíneo
agil-claro
estabanadoo peixe
a areia
o sol


Affonso Romano de Sant'Anna
(poeta brasileiro)

Alexandre: faz como eu

Alexandre: faz como eu.
Fecha-te nestas quatro paredes,
mas sonha que andas lá por fora
(na terra sem céu)
a matar as sedes
da gente que chora.

O moleiro mói melhor a farinha para o pão
no isolamento do moinho,
mas com a condição
de ouvir bater no coração
o do vizinho.

Acredita, Alexandre, que a solidão
é boa para não estar sozinho.


José Gomes Ferreira


8.11.07


Alentejo


Terra parida,
Num parto repousado,
Por não sei que matrona natureza
De ventre desmedido,
Olho, pasmado,
A tua imensidade.
Um corpo nu, em lume ou regelado,
Que tem o rosto da serenidade.

Miguel Torga

6.11.07

Insónia Alentejana


Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar...

Miguel Torga



Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

António Ramos Rosa


4.11.07


Washington Square


Por toda a parte, desde Washington
Square que os esquilos
me perseguem. Mesmo em Camden,
junto ao túmulo de Whitman,
vinham com o outono
comer à mão. Mas é de noite
que mais me procuram: os olhos negros
continhas acesas.
Agora vou deitar-me à sombra do rio
até um deles entrar neste poema
e fizer a casa.


Eugénio de Andrade



Prince Charmant

A Raul Proença


No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas


Das noites da minh'alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...


E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!


Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
- Nunca se encontra Aquele que se espera!...


Florbela Espanca




Cotovia


- Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?
- Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.
- Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.
- Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

- E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

- Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

- Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

- Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
- Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.


Manuel Bandeira (poeta brasileiro)

O grito: variações


O caderno onde escrevo trouxe-mo a minha filha
de viagem. Tem «O Grito» de Munch sobre o corpo.

Sinuoso e disforme, auto-retrato raso, a boca em
verde, as mãos acompanhando a curva da cabeça,
e o resto em disjunção — como esse céu. As cores
serão de pouco mais de século, foram nórdicos dedos
a compô-las. Mas há nessas figuras ao fundo de uma
estrada, de uma ponte (divisão de harmonia e des-
conforto, de um azul escuro a encostar-se ao negro),
uma implosão comum. É uma ponte, tem que ser
uma ponte o que se vê, e o caos que se desenha
nesse rosto não deve estar atrás, mas no que está à
frente, no caminho. Qualquer futuro, invisível daqui.

E há os pequenos barcos, perigosamente em centro
indefinível. Redemoinho? Sol? Seja o que for, reflecte,
parcialmente, um amarelo quente, ameaça de um astro
que se põe. Ou de um meio-dia atravessado a ventos
ondulantes. Podia-se (inviamente) inverter o caderno,
ver em diagonal. Mas seria uma imagem semelhante
à do caderno inteiro. Mesmo que do avesso, havia de
falar a mesma dor. Curvo e sinusoidal, o mesmo espaço.

Só a cerca castanha, precipitada no abismo verde,
é breve protecção.

Ela, e a mão que, de viagem, me trouxe este caderno.
Um pouco ainda, também, as suas folhas, que, por
enquanto (e quase todas), brancas, lhe são um forro
quase mudo. Quase —


Ana Luísa Amaral


Canção para o Alentejo


Alentejo, Alentejo,
Vastidão de Portugal
Futuro, continental!
Terra lavrada, que vejo
A ser mar mas sem ter sal.

Ondas de trigo maduro
Onde mais ninguém se afoga:
Danças alegres da roga
Que vindima no meu Doiro
E vem colher o pão loiro
Da inteira fraternidade
Que falta a esta metade
De coração largo e moiro...

Miguel Torga

Reflexivo



O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.


Affonso Romano de Sant'Anna
(poeta brasileiro)

Cala-te, mar!


Cala-te, mar!


Tu que despedaças os barcos dos pescadores
para aumentar de lágrimas nas praias
as ondas de alta morte,
e embalas peixes de sol
no desmaio das aguarelas
com poentes fulvos
a porem impossibilidades de tormentas
nos salões de seda dos palácios.

Deixa ouvir a minha voz no mundo
pegada de toda a miséria dos caminhos
de súbito tão azul nos olhos daquela Criança
a sofrer a dor cósmica de não ter pão,
o pão negro dos abismos e das vielas
fabricado com o suor cósmico dos homens.

Mas que te importa, mar?
Que te importa mais uma criança do tamanho da morte
com os olhos da cor de ignorar tudo na vida menos a fome?

O que queres é berrar, berrar uma dor qualquer sem sentido
para cobrir a minha voz de protesto de espada
- terrível como um grito insuportável de doer.

O que queres é berrar
-mar inútil! Mar enorme! Mar que dás a volta ao mundo
e és tão pequeno ao pé destas lágrimas
que me caem dos olhos,
frias e ardentes como balas.

Mar.
Lágrima de ninguém.

Não queiras cobrir-me a voz
com o furor da tua boca de espuma
onde nem há rogos de náufragos nos rasgões do vento.

Não me obrigues a rugir mais alto do que tu
numa indignação de tempestade de silêncio
que lança raios dos homens para as nuvens.
Cala essa ira de falso gigante
a esculpir rochas, a escavar penedos,
a rachar montanhas de alto a baixo com bramidos.
E tudo para quê?
Sim. para Quê?

Para os piratas esconderem tesouros nas ressonâncias das furnas
e as nereidas deixarem-se sugar pelos polvos em núpcias de morrer?

Ah! cala-te, mar?

Cala esse tumulto vão de água, faíscas e relâmpagos
-cenário indiferente duma tragédia que os homens não entendem,
que eu pelo menos não entendo,
nem quero entender,
por mais que os meus colegas poetas chamem drama cósmico
ao teu cuspir de amor para as estrelas.

Cala-te, cala-te, mar!

Não queiras abafar a minha voz
com tempestades pagas pelos ventos ricos.


José Gomes Ferreira