14.5.07

A morte para os tristes é ventura


XIX

Quem se vê maltratado e combatido
Pelas cruéis angústias da indigência:
Quem sofre de inimigos a violência,
Quem geme de tiranos oprimido:

Quem não pode ultrajado e perseguido
Achar nos céus, ou nos mortais clemência:
Quem chora finalmente a dura ausência
De um bem, que para sempre está perdido:

Folgará de viver, quando não passa
Nem um momento em paz, quando amargura
O coração lhe arranca e despedaça?

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,
Que a vida para os tristes é desgraça,
A morte para os tristes é ventura.


Bocage



Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram. Quando as folhas da melancolia
arrefecem com astros ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária.


Herberto Helder


Nos canteiros
Riem as flores
e tu passas, entre elas,
também a rir.

Em volta, tudo ri,
e eu sinto-me possuído desse riso.
Cerro os olhos.
Receio que me cegue a luz do Paraíso.


Saúl Dias


13.5.07


Juntamos toros e gravetos
para a lareira. Na mata

flutua o crepúsculo.
Marcos de luz a findar.

Vagas de zimbro, escórias
o arpão do esquecimento.
A súbita melancolia da casa.

As janelas abrem para o rio
e a barra e a ilha com névoa.
Podias ser tu de céu a céu.

A inquieta certeza da poesia
não admite questões. Descobre-se
ao virar da vinha, quando chegamos
ao tanque e não há ninguém.

Joaquim Manuel Magalhães



Sem remédio

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.


E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!


Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!


E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!...


Florbela Espanca


Víbora


Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.

Almeida Garrett


Tal como antigamente tal como agora
essa estrela esse muro
esse lento
esse morto
sorrir
nenhum acaso
nenhuma porta
impossível sair

António Ramos Rosa



A que há de vir

Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.


Vinícius de Moraes (poeta brasileiro)


12.5.07


A verdadeira arte de viajar


A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!


Mário Quintana (poeta brasileiro)


9.5.07

Entre duas memórias;


já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.

Carlos de Oliveira


Uma vida esquecida

Para o Fernando Alves dos Santos


Eu conheço o vidro franja por franja
meticulosamente
à porta parado um homem oco
franja por franja no espaço
meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente
dez badaladas por brincadeira dança
um homem com pernas de mulher
e um olhar devasso no Marte
passo por passo uma criança chora
uma águia e um vampiro recuados no tempo


António Maria Lisboa


8.5.07



Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.


Miguel Torga


7.5.07


Quiproquó


Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicídio de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.


Arménio Vieira (poeta caboverdiano)



Teus mimosos pés, meu bem, rendido


XVIII

A teus mimosos pés, meu bem, rendido,
Confirmo os votos, que a traição manchara;
Fumam de novo incensos sobre a ara
Que a vil ingratidão tinha abatido.

De novo sobre as asas de um gemido
Te of´(e)reço o coração, que te agravara;
Saudoso torno a ti, qual torna à cara
Perdida pátria o mísero banido.

Renovemos o nó por mim desfeito,
Que eu já maldigo o tempo desgraçado
Em que a teus olhos não vivi sujeito;

Concede-me outra vez o antigo agrado;
Que mais queres? Eu choro, e no meu peito
O punhal do remorso está cravado.


Bocage



Quem diria, vou viver
além do século gasto,
só é pena o calendário
me trocar a identidade
(Venho contigo ao jardim
com dedos vazios de rimas
quem diria, eu que vou ser
presidente dos cantores)
Tenho na boca o aço
do pesadelo real
fiquei preso à voz do eco
é banal! ao telefone
só, de plástico, etc.,
procura, sigilosa, desejável foto
(enfim, por fax, a cores).
Quem diria, preso à voz
não sei de quem, que me ouvia.

António Franco Alexandre



Abria o guarda-fatos e tirava
o casaco mais velho e as piores
calças de veludo cor de sombra
Ia ter contigo. Só o perfume

fazia pressentir o coração,
essa frágil ideia que batia
quando me sentava no café
muito antes da hora combinada.

As mãos quietas, o rosto debruçado
para o vidro sujo de tabacos
donde ao longe havias de chegar.

O chão coberto duma luz magoada,
de papéis amassados, cinzas
que teus pés vinham a calcar.

Joaquim Manuel Magalhães


Teu nome amarfanhado jaz num poço
a um salto mortal do esquecimento
teu nome renegado que eu não ouço
teu nome feito raiva e desalento

Teu nome que eu roí até ao osso
do ódio da ternura e do tormento
é agora o sinal de que não posso
castigar mais o próprio sofrimento.

Teu nome a cama estreita onde me deito
o abismo de sons onde recordo
um silêncio impossível e perfeito.

Teu nome que só lembro quando mordo
um nome de milhões de nomes feito
que só é nomeado quando acordo.

José Carlos Ary dos Santos

Separação



Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.

O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


Affonso Romano de Sant'Anna
(poeta brasileiro)

Purificação


Senhor, logo que eu vi a natureza
As lágrimas secaram.
Os meus olhos pousados na contemplação
Viveram o milagre de luz que explodia no céu.

Eu caminhei, Senhor.
Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seiva
Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
Eu caminhei.
Nem senti a derrota tremenda
Do que era mau em mim.
A luz cresceu, cresceu interiormente
E toda me envolveu.

A ti, Senhor, gritei que estava puro
E na natureza ouvi a tua voz.
Pássaros cantaram no céu
Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
Senti a alegria da vida
Que vivia nas flores pequenas
Senti a beleza da vida
Que morava na luz e morava no céu
E cantei e cantei.

A minha voz subiu até ti, Senhor
E tu me deste a paz.
Eu te peço, Senhor
Guarda meu coração no teu coração
Que ele é puro e simples.
Guarda a minha alma na tua alma
Que ela é bela, Senhor.
Guarda o meu espírito no teu espírito
Porque ele é a minha luz
E porque só a ti ele exalta e ama.

Vinícius de Moraes (poeta brasileiro)

6.5.07


Desalento

Ao grande e estranho poeta A. Durão


Às vezes oiço rir, é ’ma agonia
Queima-me a alma como estranha brasa
Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia
Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa!


Tenho sede d’amar a humanidade...
Eu ando embriagada... entontecida...
O roxo de maus lábios é saudade
Duns beijos que me deram n’outra vida!


Ei não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me vejam nos olhos o segredo
Que só saber chorar, de ser assim...


Gosto da noite, imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!


Florbela Espanca

5.5.07


Da discrição


Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...


Mário Quintana (poeta brasileiro)


4.5.07


Ah Quem te contivesse
ó diverso Universo
em três versos

David Mourão-Ferreira


2.5.07


Estepa

A Cecília Meireles


Desterro dos desterrados,
Meu coração é estepa delicada:
E meu cabelo neva
Sem Pátria, minha amada
Minha amada.

Vou como ovelha tresmalhada
Que viu lobo,
Homem do povo, homem do povo
Que chora em sua Pátria amada.

Sem nada, sem nada.
Sinto-me velho já do meu cansaço;
Sou como o pobre que trabalha a terra
Com o seu braço.

Meu coração é estepa delicada
E a minha alma é louca:
Ah! o heroísmo de cavar a terra
Sem o pão nosso cada dia para a boca!


Afonso Duarte


Labaredas


I
Só a luz de um sorriso
no seu puro recorte
É tudo o que preciso
para adiar a morte

II
Sentir na tua pele
o princípio do mundo
pra que aí se revele
o nosso mar sem fundo

III
Beijar a tua boca
ao fim de tanto tempo
Descobrir como é louca
a chama a arder ao vento

IV
Entrar de novo em ti
com plena lucidez
de te saber aqui
pela primeira vez

V
Beber a tua luz
no corpo que se entrega
Só isso me conduz
à verdade mais cega

VI
São dois corpos sonâmbulos
à procura de um centro
semelhantes a tantos
no seu vão movimento

VII
Entre pétalas de água
o sabor do teu fogo


Fernando Pinto do Amaral



Poeta o que é?


Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
- mas apenas vê
o que não ilumina.


José Gomes Ferreira