12.3.08

Lar de papel



Eis que regresso e vos pergunto:

Virei modificado?

Mais simples? mais humanizado ?

Ou serei para vós como um defunto

Inutilmente ressuscitado?

Perdão, se venho sem loucura!

Deveria, decerto, regressar

A correr, a gritar, a suar, a sangrar...

E com um brilho no olhar

(O brilho de quem acha o que procura).

Não trago o som da vaga que rebenta,

Mas secretos marulhos ciciados,

Sonhos ainda quentes da placenta.

- nem grandes penas minha mente aumenta,

Como fazem, à volta, os exilados.

O meu lar de papel inda está quente?

Quanta vez a poesia diz à gente,

Como a vida aos mendigos: Paciência!...

Mas maior é a dor de quem pressente(*)

Que ninguém deu p’la sua ausência.

Ah, que este simples alibi: Andei,

Por onde tanto sofre o servo como o rei,

Humanamente vos faça

Perdoar-me esta mordaça

Com que parti e voltei!


Carlos Queirós