23.12.07


Hoje o luar

(O meu Dom João das mulheres feias e repelentes)


Hoje o luar colou-me nos pés
asas de cantar...

E apetece-me andar pelas ruas
a atirar escadas de corda
para as trapeiras
de frio no ar...

E entrar subtil pelos vidros partidos
nos esconsos de alma
com montes de trapos e de corpos
nos cantos suados...
E meter-me invisível nas camas de treva
com lençóis de teias de aranha,
pé ante pé,
entre cadáveres de desejos,
onde suspiram as tristes, as marrecas, as bexigosas e as famintas
com a carne transida de lágrimas e de soluços.
E apertar ao peito todos os corpos feios a repelirem-me de amor,
todas as peles já ásperas do barro da morte,
todas as desprezadas dos alçapões,
todas as expulsas pelos chicotes do sol,
nesta noite extraordinária
em que apetece subir pelo luar
até àquele ponto exacto do silêncio nas nuvens
em que o êxtase rasa de beleza igual
todos os bichos do mundo
fundidos no mesmo instante de terra e lua
- com um coração de astros
a latejar nas pedras.


José Gomes Ferreira